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Que réveillon!!!

Antes de mais nada…

>>>Feliz Ano Novo<<<

Que todos os próximos dias sejam felizes! Mais felizes que esses que ficaram para trás. Que possamos viver cada vez melhor uns com os outros! Porque é assim que se vive bem, em harmonia com tudo e todos.
Desde o ano retrasado ando numa fase tão boa, mas tão boa, que às vezes fico na dúvida se é real ou fantasia. Que nada! Foi tudo verdade, virei mestre na arte de me surpreender. Passo o tempo todo repetindo no meu pensamento COISAS BOAS ACONTECEM!!! COISAS BOAS ACOTECEM!!! E acontecem mesmo. Não duvidem. Só é preciso um olhar mais demorado.
Quero falar do réveillon mas não sei se vou conseguir descrever como foi a noite da minha virada. Eu estava no melhor lugar do mundo, na companhia da pessoa que mais amo! Entenderam? Eu estava no melhor lugar do mundo que era ao lado da pessoa que mais amo! E amo tanto, mas tanto… Comecei o ano com o pé direito e com o coração tão tranquiiiilo que não me lembro de ter feito um pedido Hahaha… Lilás, o que mais poderia desejar naquele momento? Impossível racionalizar alguma coisa, só me deixei levar por aquela emoção.
Gozado que, quando o dia amanheceu, fiquei meio paranóica. Acho que foi a primeira vez que virei o ano sem desejar nada naqueles primeiros átimos. Perguntei várias vezes: Big, o que foi que você pediu? E mesmo ele respondendo, me parecia inacreditável. Fiz a mesma pergunta várias vezes e ele me olhava com aquela serenidade que lhe é peculiar e dizia: Rê, saúde, paz e amor. E concluía todo vivaz: Para nós dois! Ele respondeu desse jeitinho todas as vezes que perguntei.

Para nós dois! Para nós dois! Para nós dois! Era o que ecoava na minha cabeça o tempo todo.

Deus do céu! Era isso, exatamente isso, que sempre desejei. Estar em alguém! E agora quando olho para o Big minha cabeça parece Copacabana sob um céu explodindo cores sem parar. De vez em quando até rola uns flashes dos nossos beijos, dos nossos abraços, do nosso brinde, de nossos vários momentos juntos, dos amigos ali presentes… Mas esse sentimento de constatação de um pedido de amor realizado é maior do que eu, é infinito, infinito como as ondas do mar.
Ah o mar! O que seria do primeiro dia do ano sem um banho de mar? Sem aquele sol, sem aquele sal?
Ainda havia tempo, muito tempo para furar as tais sete ondas. E foi lá na praia do Leblon que furei todas as ondas que pude e mais um pouco. Sabe como é, exagerar é o forte da casa. Perdi as contas. Na verdade eu não só precisava de um banho de mar como não queria mais sair da água, ainda mais com o Rodrigo ali comigo. Foi uma delícia inesquecível! O primeiro de muitos mergulhos com o meu amor. Até ele, que não é chegado, amou!
O curioso é que já estive tantas vezes naquela praia e nem por isso deixei de me embasbacar novamente com aquela paisagem. Diante do mar, com os pés no chão sob um céu de infinitas possibilidades eu estava em estado de graça.
Aos poucos o céu foi se transformando, estávamos diante do primeiro espetáculo vespertino – o por do sol. Olha, foi um desbunde tão grande, que como se não bastasse aquele tom de vermelho meio pink meio laranja no meio daquele azulão, as nuvens se movimentaram de uma maneira tão única, que me pareceu uma aurora boreau. Sabe como é, quando estou feliz tudo é intensificado ao máximo.
A caminho de casa, me veio à tona mais uma lembrança de um trecho do livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Impressionante como cada capítulo se encaixa na minha vida perfeitamente desde que comecei a sentir esse amor, essa consciência de mim mesma. É como se esse livro tivesse arrematado o meu amadurecimento como mulher. Tirando a parte dos “goles grandes” (quem é louco de beber água do mar hoje em dia?), considerando a companhia do meu amor e a frase que, na minha opinião, sempre definiu bem o prazer de viver, num clima meio libertino, sexualmente falando mesmo ‘de sol, de sal e de mar’, eis o trecho sensacional:

Uma dica para amar VII -

Brilhando de água e sal e sol

“Com a concha das mãos e com a altivez que nunca darão explicação nem a eles mesmos com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.

E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.

Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal que seca, as ondas lhe batem e voltam, lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que não teme pois que sabe que terá tudo de novo.

O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: ela está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer: quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate, volta. A mulher não recebe transmissões nem transmite. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia, e as ondas empurram-na suavemente ajudando-a a sair. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já haviam andado sobre as águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência à sua saída puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água e sal e sol. Mesmo que o esqueça, nunca poderá perder tudo isso. De algum modo obscuro seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.”

Esse foi O banho de mar e o meu melhor réveillon!!! Engraçado que sempre senti no meu Big um cheiro de maresia… tão sadio, tão atraente quanto o mar.
Bem, queridos, está sendo assim a minha vida, boa pra caramba! Sinto que se eu não me lançar, não me arriscar todo dia, vou perder a melhor parte – a cereja do bolo!!!
E você aí? Ainda não se habituou a viver?
O por do sol é quem vê! (Millôr)

VIVAMOS 2010 INTENSAMENTE

Réveillon 2010

Curtindo os fogos de Copa da varanda. E claro que a bandeira verde e rosa não passou despercebida na praia do Leblon, em 01/01/10!

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Queridíssimos,

Já disse aqui que adoro essa época? Se não, lá vai: Adoro final de ano!!! Principalmente desse que começou tão sem graça e agora vai-se embora em alto estilo.
Balanço final positivo, grandes expectativas, espírito diariamente renovado… Não que tudo tenha sido perfeito, o motivo da alegria não é esse. Mas foi quase. Quase! E cada vez estou mais perto do estado que sequer sei definir. Talvez esteja no começo de um estado de graça, exatamente como aquele que a Clarice descreveu em O livro dos prazeres – o estado de graça de uma pessoa comum que de súbito se torna real, porque é comum e humana e reconhecível e tem olhos e ouvidos para ver e ouvir as descobertas indizíveis e incomunicáveis:

Uma dica para amar VI – Estado de graça

“… Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça.
Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte.
O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. Nesse estado, além de tranquila felicidade que se irradiava de pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava.
O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.”

Que 2010 supere nossas expectativas! Que todos nós sejamos mais otimistas, conscientes e humanos! Afinal, a vida não é de se brincar, em pleno dia se morre.

Não sei quando escreverei neste blog novamente. Quero aproveitar a folga no trabalho curtindo cada segundo offline LÁ FORA, sentindo tudo que tenho direito.

E muito obrigada por todos os emails desejando feliz natal, boas festas, boas entradas… Obrigada por todas as demonstrações de carinho. Vocês são demais!!!

Saúde, paz e amor!

É o que desejo

superlativamente,

hoje e sempre,

Renata

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Uma dica para amar VI – A truculência humana

Ontem curti uma festa junina daquelas bem típicas. A turma caprichou na indumentária, deu gosto de ver. Principalmente um casal que… Não adianta, estava tentando evitar, mas é mais forte do que eu esta vontade de destilar um pouco do meu veneno, lá vai:
Ele que embora estivesse com roupa comum, sequer desconfiou o quão caipira é sem fazer o menor esforço. Ela que, apesar de ter feito do próprio nome uma grife, lá estava totalmente jeca, mais parecendo uma jamanta atropelada de frente por um caminhão – descrição maldosa do meu amigo italiano que, por sua vez, destoava da temática justamente por ser italiano. Altivo, sedutor… capicce?
Fofoquinhas à parte, estava mesmo de olho na maçã do amor e foi quase morte ter apenas que me contentar com algumas lambidas gulosas e demoradas. O meu aparelho não me permitiu saciar a vontade daquela delícia. Assim como foi quase morte ter o meu irmão como gavião na hora da dança. Queria que o meu gavião estivesse ali comigo, me agarrando de verdade.
De repente, um cheiro de churrasco tomou conta da festa e lá estava o pobre do leitão no rolete, assando desde cedo. Foi uma cena dantesca! Não entendo como alguém pode olhar para aquilo e ficar com água na boca. Uma pena absoluta tomou conta do meu ser e olha que não sou vegetariana! Até gostaria, mas ainda não consegui. E olhando para aquele cadáver imenso girando, 85 quilos de carne, algumas pessoas em volta babando, imaginei a morte daquele animal. A insensibilidade do churrasqueiro era de assustar e o cheiro do leitão assando fazia repetir na minha mente apenas uma palavra – truculência.

O leitão - 1O leitão - 2O Leitão - 3
Não comi o leitão. Aliás, a maioria ali não comeu. Mas o salsichão foi um sucesso. Até eu, que tenho nojo de salsicha, comi. A falta de escrúpulos imperou. Ninguém lembrou da morte ao comer o salsichão ou o churrasquinho no espeto. A truculência justificou o fato de a vida se alimentar de morte.

No livo Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, que não canso de indicar aqui, tem um diálogo entre Ulisse e Lóri interessantíssimo, vale a pena refletir sobre o tema:

_Não sei mais se no restaurante da Floresta da Tijuca tem galinha ao molho pardo, bem pardo por causa do sangue espesso que eles lá sabem preparar. Quando penso no gosto voraz com que comemos o sangue alheio, dou-me conta de nossa truculência, disse Ulisses.
_Eu também gosto disse Lóri a meia voz. Logo eu que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas, mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Não era melhor, quando formos lá, comer outra coisa? Perguntou meio a medo.
_Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.

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Falando em morte…

Uma dica para amar V – Antes de morrer

As mortes são tantas hoje em dia, que me parecem ser mais comum do que a própria vida. São mortes criminosas, acidentais, consequentes, naturais, fatos tão corriqueiros que o abalo emocional só acontece quando a morte envolve uma pessoa próxima ou quando foge da normalidade que se espera individualmente.
No entanto, todas as formas em que a morte se apresenta são apenas morte para quem morre e inconformismo diante da perda do ente querido insubstituível ou da iminência certa e inevitável para quem ainda vive. Em ambos os casos, uma grande injustiça.
Presumo que a constatação na hora H seja unânime: uma vida, a vida que conhecemos, nunca é o suficiente. Quando a vida é digna de esperança, todo mundo quer viver mais e mais, cada vez mais. Quem nasce quer viver e não morrer, apesar da morte ser o único fim previsto a todos. Dificilmente aceita-se a morte.
Não tenho medo de morrer. Se eu morrer, morri, acabou. A questão é que ANTES de morrer, como um ser humano qualquer, QUERO VIVER MAIS! E não quero viver sofrendo, sentindo dor. Se isso acontecer que a morte seja breve, o meu alívio necessário.
No livro, A Aprendizagem, que não canso de citar aqui neste blog, mostra o tempo todo esse confronto entre a vida e a morte. Em certo momento, Ulisses diz assim:
“Antes de morrer se vive, Lóri. É uma naturalidade morrer, transformar-se, transmutar-se. Nunca se inventou nada além de morrer. Como nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego e, no entanto, cada pessoa sem saber da outra, reinventa a cópia. Morrer deve ser um gozo natural. Depois de morrer não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso”.
Se eu morrer hoje, vou ser pega de surpresa tanto quanto você. Será uma morte estúpida, precoce, injusta, porque a vida que vivi até aqui ainda não me foi o suficiente. E não tenho nenhum remédio que amenize o inconformismo que restará aos que me amam e ainda viverão, além da lição de que se deve VIVER APESAR DE. Só sei que até lá, assim como Lóri, “não posso ter uma vida mesquinha porque ela não combinaria com o absoluto da morte”.

*Minha solidariedade às vítimas do Airbus da Air France, voo 447 (01/06/09) e às vítimas de mortes estúpidas e precoces.

MORRER PODIA SER SÓ UM POUQUINHO
podia ser um passeio
viagem pela noite que acabasse no café

Morrer como uma aventura
uma montanha
andar o deserto a pé depois voltar

Como dançar de olho fechado
se perder em outro corpo
como uísque bom, um sono inteiro
um prazer, um cheiro

Morrer podia até ser um castigo
porta fechada com prazo de fim
mas não esse buraco, esse abismo
seu riso sempre ausente
sua música soando em mim

Maria da Poesia

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Uma visita inesperada

Já comentei neste blog que moro em um bairro onde existem muitos animais abandonados nas ruas. Os mais comuns são gatos, cachorros e, acreditem, cavalos! E como se não bastasse o fato de estarem abandonados, alguns imbecis fazem cada maldade com os inocentes que é uma coisa assim… inacreditável! Volta e meia fico sabendo de umas histórias horripilantes! Dá vontade de pegar todos os animais e levar para dentro de casa, cuidar e proteger. Tenho dó de bicho abandonado e judiado! De pessoas também, óbvio. Até hoje fico sem saber como agir quando passo por um mendigo ou um simples vira-lata largado nas ruas. É uma sensação de coração cortado!

Cavalo alugado não cansa

Aqui em Petrópolis existe aquele comércio provinciano de alugar por hora cavalos e charretes para o deleite dos turistas e veranistas. Não tem nada a ver com equitação – a arte de manter um cavalo entre você e a terra. Esquece isso! Presume-se que os donos do negócio gostam dos cavalos, mas não é verdade, não do jeito como imaginamos. Gostam de explorar os indefesos enquanto robustos e bonitos. Depois abandonam os infelizes, nem sei que fim levam exatamente. Pode ser que exista um “recanto” para cavalos velhos e/ou maltratados e eu não esteja sabendo. Só sei das chicotadas sem mais nem menos, que já cansei de presenciar, dadas pelos próprios donos e ‘cavaleiros’. Eles não têm noção de como domar um animal desse porte com respeito. Tanto, que se vê na pele do animal as marcas das chicotadas. E o olhar do cavalo? Não posso com aquele olhar! Dá pra ver naqueles olhos grandes a angustia e a tristeza por não serem livres. São escravos, é assim que os vejo.
Certa vez, até briguei com um cara na rua. O cavalo empacou, com certeza por exaustão, e o ignorante do ‘cavaleiro’ não perdoou, assisti a uma seqüência de chicotadas da forma mais estúpida possível. Lembro-me que havia uma ferida aberta na parte traseira do animal e era ali mesmo que o cretino sentava-lhe o chicote! O cavalo, coitado, acuado no canto da rua, provavelmente se perguntando que sina maldita era aquela?!

Mulher sardenta e cavalo passarinheiro, alerta companheiro

E aí, como vi e o meu coração sentiu, não teve jeito. Meu sangue ferveu, fui até o imbecil e perguntei:_ Vai bater até matar, seu filho da puta? Fiz um auê daqueles! Com direito a Polícia e o escambau! Tecnicamente não adiantou nada, só serviu mesmo pra assustar o covardão.

Visita inesperada

Agora há pouco ouvi um barulho diferente no portão da minha casa. Desci para ver o que era. E lá estava um dos animais mais bonitos desta natureza, ainda que maltratado – um cavalo branco.

Visita inesperada

Lindo e judiado!

270509

270509

Bem diferente do cavalo da Lóri.

Uma dica para amar IV

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

O cavalo da Lóri

Ulisses inventara um sistema para Lóri: Tudo que não soubesse ou não pudesse dizer, escrevia e lhe daria o papel mudamente. Prestes a se encontrar com Ulisses, não queria ir de mãos vazias. E assim como quem leva uma flor, ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer:

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez”.
Ela sorriu: Ulisses ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era?

Nada de selas, rédeas, só a liberdade de ser

Por fim, não me perguntem qual é o sonho da minha vida porque a única resposta que poderia dar seria a seguinte pergunta: Qual deles? E um deles é ter um cavalo e um lugar imenso onde possa criá-lo Livre, simplesmente!
Talvez o meu coração seja esse lugar, uma cocheira de portas abertas. Só me falta mesmo O cavalo. Hahah…

Nota: Os dois primeiro subtítulos são provérbios gaúchos

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Uma dica para amar III – Quem é Ulisses?

Eu ia dizer que Lóri aprendera com Ulisses mas, na verdade, fui eu quem aprendeu com Ulisses. Aliás, aprender não é bem o termo adequado para o que quero expressar. Espraiou em mim um pouco mais da aprendizagem sobre Ser:

A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano

O livro (Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres) é assim, sutil e cheio de impacto. Tão facilmente como Lóri, chega-se à conclusão de que não existe dia-a-dia e sim vida-a-vida. Porque para ser alegre é preciso sofrer de um estreitamento no peito: a Vida. Escapar da ilusão da segurança na dor morna… Como disse antes não vou contar tudo, só quero destacar alguns trechos que me marcaram. Dentre eles, descobri um pouco de Ulisses em mim, embora substancialmente falte Ulisses em mim. Em certo momento ele disse:

_Quer saber como eu sou para me aceitar? (…) Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente, mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado?

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Uma dica para amar II – Apesar de

Saudade

Já faz dias que li O livro – Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (clique aqui para comprar) - e o Ulisses não me sai da cabeça… Hahaha. Estou perdidamente apaixonada por esse personagem. Aliás, é comum isso acontecer quando leio um livro de que gosto muito, mergulho na história de tal forma que me envolvo com os personagens. Quando o desfecho se aproxima, começo a enrolar a leitura, relutante para que o fim demore o máximo. É como viajar e não querer voltar para casa.

Nesse romance, a Clarice foi tão genial, mais sacana que genial, eu diria, que a história começa com uma vírgula, ou seja, o que aconteceu antes não importa, pega-se o bonde andando literalmente. Mas é possível entrar logo no clima do livro, o fluxo do texto é ótimo! E ela ainda se superou no final – foi má! Terminou a narrativa com dois pontos e nós, pobres leitores, que nos conformemos! Ah! Não queria mesmo que o livro tivesse acabado ali, apesar de tudo que realmente importava na história já tivesse sido contado naquelas míseras 155 páginas, fiquei na vontade!

Título

Cada leitor decidirá se o livro foi Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Para mim, foi meio a meio. O livro todo foi um prazer, mas o meu aprendizado foi diferente do da Lóri.

Personagens

A Lóri era uma pessoa que vivia em negação, retraída, complexada, o que era inadmissível em uma mulher livre, independente, num mundo que só lhe oferecia possibilidades. Sem orientação emocional, aplicava muito mal o que sabia à sua vida. Até que surge o grande ser humano Ulisses e transforma, ou melhor, descobre o seu ser, o seu melhor ser.

O encontro dos dois poderia ter sido apenas mais um caso frívolo de sexo sem compromisso ou uma dessas mil relações superficiais que existem por aí, se não fosse a grandeza de Ulisses. Um homem incomum, culto, que em nome do verdadeiro prazer, valendo-se de todo seu conhecimento, deu a Lóri a chance de sentir o mesmo.

Não se sabe quando começou o amor, mas o respeito que Ulisses era capaz de sentir pela mulher, a Lóri, desenvolveu uma linda história de amor. Fico imaginando quantos corações ele deve ter partido até decidir ficar só com a Lóri… Hahah. A única mulher que também deu a ele a verdadeira possibilidade de derramar todo o amor que havia dentro de si. Juntos, os dois se tornaram melhores, invencíveis.

Um pouco da aprendizagem

Um dos ápices do aprendizado é quando a Lóri sente pela primeira vez calor humano. Ela não sabia lidar com aquilo e naturalmente se retraiu. Ligou para o Ulisses, tentando desmarcar o próximo encontro, e ele, do alto de sua magnanimidade, diz com um tom grave embora tranquilo:

Lóri, uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.
Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi.
E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero.
Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Não vou contar o que veio logo em seguida, mas passaram-se quase dois anos, se não me engano, até que a Lóri conseguisse expandir sua condição humana, não se resumir a um ínfimo corpo vazio e doloroso, que é menor que o pensamento. Afinal, aprendera com Ulisses a ter coragem de ter fé. Valia a pena aprender (sem medo) a amar e ser amada.

Lá vai mais uma frase bonita do livro:

“… a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”

Que falta me faz um Ulisses na minha vida!

Conhecer Ulisses me causou uma certa revolta. Onde hoje em dia se encontra um homem assim? Um ser humano assim? Dificilmente, algum relacionamento surge antes do sexo. As etapas são queimadas e o objetivo, o prazer, sequer é alcançado. Fiquei pensando nos meus antigos relacionamentos, se eu juntar todos os homens que tive, não dão o dedo mindinho do pé do Ulisses. Aliás, os meus relacionamentos foram piadas em comparação a esse que a Clarice narrou. Uma perda de tempo total, um engano à primeira vista, errei de pessoa todas as vezes em que me aventurei a ter uma relação, justamente porque não sabia controlar as minhas emoções, a vida, a coragem que existia em mim, eu não sabia SER EU, ou seja, também não fui lá grandes coisas! Por isso, nenhuma das minhas relações deixaram saudades. São fotos, muitas por sinal, pedaços de papel de momentos em que não me reconheço.

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Uma dica para amar I – Apresentação

O problema de se nascer numa família cujo diálogo é unilateral ou com desfecho autoritário, conveniente à parte que o discursa é um atraso na formação do ser humano. São chibatadas da vida que poderiam ter sido evitadas, se houvesse, se tivesse sido aplicada a maior prova de amor – a paciência. Mas tudo é tão corrido, que não se vive como deveria. Em nome da praticidade, seguimos como o pior dos cegos, aquele que não quer enxergar; seguimos como operários, repetindo gestos de forma automática e totalmente despreparados para o inesperado, para o que se apresenta intenso e infinito. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e, por isso, nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Tudo isso porque Não nos temos entregue a nós mesmos; pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. Vivemos em dor e sequer percebemos. E há quem considere isso vitória nossa de cada dia!!!

Eu acabei de ler O livro que deveria ter lido há pelo menos 15 anos. Livro este que morará  eternamente na minha mesinha de cabeceira ou até a minha história mudar e eu passar a beber vida!  Eu reconheci em um personagem muitas das minhas questões de foro íntimo. E em outro a palavra, a orientação que nunca me chegou em tempo, tendo que descobrir tudo sozinha. Fiquei completamente absorta durante a leitura e agora, após a leitura, sinto aqueles conceitos entranhados mais ainda no meu ser.

Os meus pais, como a maioria, não me ensinaram nada sobre as emoções da vida. Eles me apresentaram regras e alguns modelos, mas nada, e hoje sei mais do que nunca, nada que estivesse de acordo comigo, com o que eu era capaz de perceber, sentir, querer. Por isso, aquela eterna insatisfação ou sensação de peixe fora d’água, uma angústia como se eu fosse um passarinho de asa quebrada, uma sensação de tolhimento e um exagero prematuro e estúpido constante nas minhas atitudes.

Eu me senti durante muito tempo como uma torneira aberta, que jorra incessantemente água pura pelo ralo abaixo. Só há pouquíssimo tempo isso mudou. Muitos erros cometi, não necessariamente erros e sim desarticulações entre mim e a… Ok, ok, ok! Antes que alguém pense que li um livro de autoajuda vou revelar logo o livro que me fez entender melhor por que sou assim e não assado, por que meu nome é eu, por que quero morrer talvez ainda toda inteira para que a eternidade possa me ter toda, por que fico perdida quando tento me definir e por que sinto calor humano – eu li, indicado pelo meu parceiro, óbvio, e esse óbvio é tão óbvio, porque não é à toa que ele é o meu parceiro, meu comparte, a única pessoa, e isso afirmo categoricamente, que está sempre preocupada em me transmitir positividade, o meu queridíssimo Freitas, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, da fera Clarice Lispector.

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

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Há tanto o que dizer sobre esse livro de apenas 155 páginas que um post será pouco. Não pretendo fazer nenhuma resenha, talvez compare alguns pontos com a minha vida em série. É impressionante como um livro de 1969 pode ser tão atual! Ali não há nenhuma ideia ultrapassada, que se possa chamar de careta ou ridiculamente sensível. Faz compreender a importância de certas etapas para o fim – o prazer. Não. Faz mais! Faz entender o que é o prazer de uma vez por todas. Deve ser muito bom sofrer de vida e de amor, é tudo o que mais quero!

O livro ensina a relacionar-se, a esgotar-se na alma infinita e usar o corpo para um prazer alegre, mudo e profundo.

Quem quiser passar pelo aprendizado, fica aí a dica para uma leitura consistente e extasiante. Mas saibam que, ao começar a coisa nova, nunca mais poderão voltar à sua dimensão antiga. Boa leitura!

Nota: Os trechos em itálico foram extraídos das conversas entre Lóri e Ulisses, os personagens desse romance maravilhoso, do qual ainda pretendo falar muito neste blog. Até o próximo capítulo!


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