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A pouca realidade
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Gul(l)ar, Para enlouquecer, Para ler e viajar on 7 de março de 2010
Gula de viver e Gullar – XV
Hoje quando li a coluna do Gullar, me senti em sintonia com o meu ex-parceiro (ex porque ele sumiu!). Quando o Gullar fala de arte, o meu ex-parceiro vai ao delírio. Atualmente, ninguém parece entender a transcendência do que é a arte, como o maior poeta vivo.
Realidade não é arte. Como disse o poeta, mostrar a realidade que já conhecemos é redundante. É uma experiência científica, antropológica, qualquer coisa, menos artística.
Não estou dizendo que a realidade não instiga mudanças, mas é a arte que possibilita infinitamente a criação do universo imaginário e melhora em muito a própria realidade, vence a monotonia.
Quando o Gullar disse que A arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. Copiar a realidade é chover no molhado, ele simplesmente citou Aristóteles, que há séculos, antes de Cristo, disse:
A finalidade da arte é dar corpo à essência secreta das coisas, não é copiar sua aparência.
Essa conclusão deveria ser óbvia pra todo mundo que se diz artista ou entendido em arte hoje em dia!
É, por isso, que também não entendi aquele episódio do cachorro que morreu de fome em nome da arte. Que arte? Aquilo simplesmente foi um embuste, porque a ideia que se quis passar, de constatar a hipocrisia alheia, foi muito além da realidade comum que se vê nas ruas. O cachorro estava amarrado covardemente, sem qualquer possibilidade de mudar seu destino.
O que se presumiu como arte foi crime, digno de prisão.
Outro caso que também me chamou atenção foi a exposição da tal Sophie Calle. Desde quando expor recalque, orgulho ferido é arte? Desde quando expor as frustrações de um relacionamento, seja em capachos ou em quadros, é arte?
Aquilo ali, pra mim, não soou como superação ou transformação de nada, pelo contrário. Vi um absoluto ressentimento, ranço de história de fogo e falta de humildade.
Se eu fosse o cara da carta famigerada, processaria! Hahaha…
É muito fácil se colocar na posição de vítima ou se achar perfeita e superior como se nada pudesse ser mudado em sua personalidade. Isso é soberba demais para o meu gosto.
A arte (de viver) ali aconteceria, se ela soubesse se colocar no lugar do outro e se reinventar. Mas lamúrias em público? Não consigo nem ver sinceridade nesse tipo de atitude e sim um lance totalmente comercial, um circo interativo de quinta categoria, um caso perfeito para o Dr. Phill ou Márcia Goldschmidt! Nunca, jamais para uma galeria de artes, francamente!
Expor roupa suja ao público, por meio da arte, nunca leva a uma obra-prima. (François Truffaut)
Assim como o poeta e com certeza como o meu queridíssimo ex-parceiro, prefiro a Noite estrelada de Van Gogh:
E agora, com a palavra, Gullar:
São Paulo, domingo, 07 de março de 2010, Folha de São Paulo, Ilustrada.
A pouca realidade
A arte existe porque a realidade não nos basta; copiar a realidade é chover no molhado
LEIO QUE a próxima Bienal de São Paulo será tomada por filmes, fotografias e videoinstalações. E não serão filmes de ficção, mas filmes que tratam da realidade política, econômica e social. Essa notícia veio ajustar-se a uma leitura que tenho feito do rumo tomado pelas artes plásticas, segundo a qual tudo o que nelas era fantasia foi substituído pela realidade. O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a.
A grande arte inventa o real, subverte-o, enriquece-o mesmo quando se trata de realistas como Corot ou Courbet. Digo que a arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. Copiar a realidade é chover no molhado.
Após o realismo do século 19, veio o impressionismo, de Monet e Renoir, em que a realidade do mundo dissolvia-se em luz e cores vibrantes, que mudavam com o passar dos minutos. Cézanne queria uma pintura menos fluida, mais sólida, mais próxima do real, porém, grande artista que era, terminou por desintegrar as formas reais em manchas, abrindo caminho para o cubismo. Ele dizia que, sem a natureza, não havia pintura, mas, em vez de copiá-la, tratou de mudá-la em sua pintura: a substância das maçãs que pintou é pictórica, não é a mesma da maçã real.
Pois bem, os cubistas inverteram a questão; em vez de partirem da natureza, partiram da tela, dos elementos gráficos e cromáticos para reinventar o real: o cachimbo, que se vê numa natureza-morta de Braque, não existe; ele o inventou. Foi o começo de uma revolução que a tudo subverteu e, o quadro, agora, tanto podia ser pintado como feito de recortes de jornal, fios de arame, barbante, areia, pano colado na tela. Expulso da pintura o objeto natural, tornou-se o quadro o objeto da pintura e, assim, qualquer coisa que se pusesse ali viraria arte. E nasceram a arte Merz (quadros-colagens), de Schwitters; o dadaísmo, de Arp e Duchamp; o suprematismo, de Malevitch; sem falar no neoplasticismo, de Mondrian. Implodida a linguagem pictórica, todos os caminhos se tornaram possíveis, menos a volta à imitação da natureza.
A tendência realista foi consequência da substituição da visão religiosa pela concepção científica e do desenvolvimento industrial. A linguagem abstrato-geométrica da arte levou Malevitch ao impasse da tela em branco, que o fez trocar o quadro pela construção no espaço real. Por sua vez, Schwitters passou a construir o Merzbau, uma “assemblage” tridimensional, que crescia todos os dias, a cada novo elemento que ele trazia da rua. Lygia Clark, décadas depois, no Brasil, diante do mesmo impasse, também abandonava a tela pela construção no espaço real, inventando os bichos e objetos relacionais, que, na verdade, eram pura sensorialidade, ou seja, a expressão reduzida à sua realidade material.
Com a eliminação da referência à natureza e o fim da linguagem pictórica, o quadro, como espaço imaginário, morrera e a matéria da arte passou a ser a realidade “tout court”. A rejeição da arte, como expressão estética, tornou-se a tendência preponderante. Se um artista amarra um cão numa galeria de arte, para fazê-lo morrer de fome e sede, e outro convida pessoas para verem larvas de moscas através de um microscópio, deixam evidente que o que lhes resta é mostrar a realidade, já que, sem a linguagem da pintura, não podem reinventá-la, como a arte sempre fez. E assim são levados a crer que o que vale é o real; arte é mentira. Sim, a mentira mais verdadeira que a verdade, como o sabia Pablo Picasso.
Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.
Neste contexto, a próxima Bienal de São Paulo muda-se em festival de cinema, fotos e vídeos para nos mostrar a realidade que já conhecemos: a guerra, as penitenciárias, os prostíbulos, os drogados, enfim, o pesadelo redundante, que nos chega diariamente pela televisão e pelos jornais. Ao contrário disso, uma obra de arte como “Noite Estrelada”, de Van Gogh, por exemplo, não é nunca redundante; é sempre atual, é um deslumbramento a mais no mundo. A arte existe porque a realidade não nos basta, sabiam?
Berros e estampidos
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Gul(l)ar on 14 de fevereiro de 2010
O poeta foi ao cinema e voltou com a mesma impressão que tenho tido com as super produções cinematográficas. Nada contra tecnologia, acho que tudo que inova é sempre válido. E ainda bem que o cinema é bastante abrangente, há espaço para todos os gostos. Mas não sou surda, efeitos sonoros no último volume me provocam um grande incômodo e cansaço; detesto assistir a uma nova versão de qualquer história e me deparar com deturpações grotescas; e cinema pra mim é como a diferença entre um filme com cenas sensuais e outro com cenas pornográficas. Quem disse que eu quero ver tudo? Acho bom quando a minha imaginação e sentimentos rolam soltos. É isso que me surpreende, que me causa prazer. Diante do pronto e acabado, não me restam muitas alternativas. É sim ou não porque tem que ser.
Gula de viver & Gullar XIV
Ferreira Gullar
São Paulo, domingo, 14 de fevereiro de 2010, Folha de São Paulo, Ilustrada.
Ao que tudo indica, a trilha sonora cheia de estrondos e alaridos vai tomar conta do cinema
O CALOR insuportável que tem feito no Rio, desde janeiro, me levou a frequentar os cinemas mais do que costumo. As salas estão sempre lotadas, particularmente se o filme é “Avatar”, sucesso de bilheteria no mundo inteiro. Pelo que afirmavam os críticos de cinema, teria ido vê-lo, ainda que o verão fosse ameno.
Não sei dizer ao certo se gostei ou não do filme, pois a verdade é que fui arrastado para dentro de um mundo fantástico e perturbador. Confesso que, diferentemente de outros, não me agrada sentir-me atordoado, fora de meu controle, quase incapacitado de refletir sobre o que estou vendo ou ouvindo. Por isso mesmo, as drogas nunca me atraíram.
Mas mergulhei naquele espetáculo em 3D, ora fascinado pelas flores esvoaçantes que pareciam roçar-me o rosto, ora perplexo diante daquelas aves gigantescas, cavalgadas por homens e mulheres azuis, de inusitada estatura.
Pude avaliar o que consegue fazer a nova tecnologia cinematográfica, cujas imagens surpreendentes tornam-se plausíveis e espantosamente reais. Impossível negar-se a tal espetáculo arrebatador. Isso no que se refere às imagens e aos efeitos sonoros. Já a história contada é banal, mera repetição do que mostravam os velhos filmes de Hollywood, envolvendo o colonizador branco e os índios pele-vermelha.
O filme é contraditório ao mostrar a vitória da cultura mítica, primitiva, de Pandora, sobre a mais avançada tecnologia, quando ele mesmo, como cinema, é uma exaltação da civilização tecnológica.
Depois dessa viagem atordoante do “Avatar”, decidi descansar a alma e os ouvidos vendo o filme de Sherlock Holmes, numa nova versão, de Guy Ritchie. Se esperava relaxar e me divertir é que, na minha ingenuidade, pensava reencontrar o detetive fleumático e reflexivo, que conhecia de outra época e de outros filmes. Nada de histeria e estridência.
Pode o leitor então avaliar o susto que levei quando o filme começou, alvejando-me com bordoadas acústicas atordoantes. E me perguntava que diabo era aquilo, enquanto as carruagens passavam quase por cima de mim, estrondeando a cada trambolhão. E não só elas, mas tudo o mais: a porta ao bater, os passos na escada, o chute numa lata. O Sherlock que eu conhecia, de rosto bem barbeado, cachimbo e gestos medidos, era agora, nesta versão, um sujeito mal vestido, fedido, de barbas por fazer, e campeão de luta livre, capaz de receber e também desferir golpes brutais.
A vontade que tive foi de cair fora do cinema, já que me haviam transformado num saco de pancadas, mas me contive ao lembrar que, lá fora, o que me esperava era uma tarde vazia de sábado e um calor de 50 graus à sombra.
Fiquei. E assim, entre atropelos e sustos, assisti ao filme até o fim, mal entendendo como foi que aquele novo Sherlock, mais chegado aos murros que à reflexão, desvendara as artimanhas do bandido, que parecia um Drácula, retornado do túmulo e contra o qual os mortais humanos nada poderiam.
E, desse modo, contrariando os antigos filmes de Sherlock Holmes, em vez de chegar ao fim da película com um sorriso nos lábios, respirei aliviado por me ver livre do atropelo a que fora submetido durante quase duas horas. Vou guardar o nome desse diretor, falei comigo mesmo, para nunca mais cair em armadilha semelhante.
Não sei, porém, se vai adiantar muito, já que, ao que tudo indica, a trilha sonora de estrondos e alaridos vai tomar conta do cinema daqui para a frente. Digo isto porque, mesmo antes desses filmes, já vinha me sentindo agredido pela altura do som nos cinemas, especialmente nos minutos iniciais da sessão, quando se apresentam as próximas películas. As cenas, além de fulminantes como raios, são acompanhadas de ruídos de assustadora estridência, obrigando-me a me encolher na poltrona, como se uma bomba acabasse de explodir a poucos metros de mim.
Daqui para diante, o cinema será isso? Acabou-se aquele tipo de filme que nos fazia penetrar nas intenções dos personagens, viver com eles o momento de hesitação ou encantamento? O cinema não é mais para nos fazer pensar e nos comover com os sentimentos dos personagens. Sentimento é coisa antiga. Os personagens apenas agem, chutam, espancam, trucidam, destroem, num mundo em que tudo é violência e brutalidade.
E aí me lembrei que, em “Avatar”, um terráqueo muda de lado e vira guerreiro da tribo primitiva de Pandora. Vai ver que é isso o que esse novo cinema pretende: levar-nos de volta à vida selvagem.
Dentro do peito afogada
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar on 26 de janeiro de 2010
Embora todas as expectativas, não entendi por que esse mês foi tão difícil pra mim.
Não é problema com o meu amor, esse vai muito bem, obrigada!
É comigo mesma, é com o mundo, com tudo que ainda não é. É com o trabalho, com a minha independência.
O problema maior é com o meu nariz que ainda não é totalmente meu. Que ironia! É esse signo da falta, como diria a Maria Rezende.
A minha vida está atrasada e o tempo se esvaindo sem dó nem pena.
E até pra expressar essa dor, essa ansiedade, esse medo de não viver o que tanto quero, encontrei uma poesia no Bendita Palavra:
DENTRO DO PEITO AFOGADA
choro lágrimas tortas
choro as certezas mortas
na calmaria da cama
O chão coalhado de dúvidas
tropeça meus pés vermelhos
se levanto, cambaleio
se deito evaparo no ar
Feito um bicho no escuro
mas curva que aconchegada
desentendo a dor que sinto
desentendo o mundo todo
e seu estúpido funcionamento
Quero o ’sim’ que hoje não veio
quero amanhã confirmado
e não importa se virá
A vida é um eterno arriscar-se
é o intervalo dos planos
e o pra sempre é outro dia
sempre longe, sempre lá
Eu quero o aqui e o agora
Que réveillon!!!
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar, R & R on 6 de janeiro de 2010
Antes de mais nada…
>>>Feliz Ano Novo<<<
Que todos os próximos dias sejam felizes! Mais felizes que esses que ficaram para trás. Que possamos viver cada vez melhor uns com os outros! Porque é assim que se vive bem, em harmonia com tudo e todos.
Desde o ano retrasado ando numa fase tão boa, mas tão boa, que às vezes fico na dúvida se é real ou fantasia. Que nada! Foi tudo verdade, virei mestre na arte de me surpreender. Passo o tempo todo repetindo no meu pensamento COISAS BOAS ACONTECEM!!! COISAS BOAS ACOTECEM!!! E acontecem mesmo. Não duvidem. Só é preciso um olhar mais demorado.
Quero falar do réveillon mas não sei se vou conseguir descrever como foi a noite da minha virada. Eu estava no melhor lugar do mundo, na companhia da pessoa que mais amo! Entenderam? Eu estava no melhor lugar do mundo que era ao lado da pessoa que mais amo! E amo tanto, mas tanto… Comecei o ano com o pé direito e com o coração tão tranquiiiilo que não me lembro de ter feito um pedido Hahaha… Lilás, o que mais poderia desejar naquele momento? Impossível racionalizar alguma coisa, só me deixei levar por aquela emoção.
Gozado que, quando o dia amanheceu, fiquei meio paranóica. Acho que foi a primeira vez que virei o ano sem desejar nada naqueles primeiros átimos. Perguntei várias vezes: Big, o que foi que você pediu? E mesmo ele respondendo, me parecia inacreditável. Fiz a mesma pergunta várias vezes e ele me olhava com aquela serenidade que lhe é peculiar e dizia: Rê, saúde, paz e amor. E concluía todo vivaz: Para nós dois! Ele respondeu desse jeitinho todas as vezes que perguntei.
Para nós dois! Para nós dois! Para nós dois! Era o que ecoava na minha cabeça o tempo todo.
Deus do céu! Era isso, exatamente isso, que sempre desejei. Estar em alguém! E agora quando olho para o Big minha cabeça parece Copacabana sob um céu explodindo cores sem parar. De vez em quando até rola uns flashes dos nossos beijos, dos nossos abraços, do nosso brinde, de nossos vários momentos juntos, dos amigos ali presentes… Mas esse sentimento de constatação de um pedido de amor realizado é maior do que eu, é infinito, infinito como as ondas do mar.
Ah o mar! O que seria do primeiro dia do ano sem um banho de mar? Sem aquele sol, sem aquele sal?
Ainda havia tempo, muito tempo para furar as tais sete ondas. E foi lá na praia do Leblon que furei todas as ondas que pude e mais um pouco. Sabe como é, exagerar é o forte da casa. Perdi as contas. Na verdade eu não só precisava de um banho de mar como não queria mais sair da água, ainda mais com o Rodrigo ali comigo. Foi uma delícia inesquecível! O primeiro de muitos mergulhos com o meu amor. Até ele, que não é chegado, amou!
O curioso é que já estive tantas vezes naquela praia e nem por isso deixei de me embasbacar novamente com aquela paisagem. Diante do mar, com os pés no chão sob um céu de infinitas possibilidades eu estava em estado de graça.
Aos poucos o céu foi se transformando, estávamos diante do primeiro espetáculo vespertino – o por do sol. Olha, foi um desbunde tão grande, que como se não bastasse aquele tom de vermelho meio pink meio laranja no meio daquele azulão, as nuvens se movimentaram de uma maneira tão única, que me pareceu uma aurora boreau. Sabe como é, quando estou feliz tudo é intensificado ao máximo.
A caminho de casa, me veio à tona mais uma lembrança de um trecho do livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Impressionante como cada capítulo se encaixa na minha vida perfeitamente desde que comecei a sentir esse amor, essa consciência de mim mesma. É como se esse livro tivesse arrematado o meu amadurecimento como mulher. Tirando a parte dos “goles grandes” (quem é louco de beber água do mar hoje em dia?), considerando a companhia do meu amor e a frase que, na minha opinião, sempre definiu bem o prazer de viver, num clima meio libertino, sexualmente falando mesmo ‘de sol, de sal e de mar’, eis o trecho sensacional:
Uma dica para amar VII -
Brilhando de água e sal e sol
“Com a concha das mãos e com a altivez que nunca darão explicação nem a eles mesmos com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.
E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal que seca, as ondas lhe batem e voltam, lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que não teme pois que sabe que terá tudo de novo.
O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: ela está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer: quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate, volta. A mulher não recebe transmissões nem transmite. Não precisa de comunicação.
Depois caminha dentro da água de volta à praia, e as ondas empurram-na suavemente ajudando-a a sair. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já haviam andado sobre as águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência à sua saída puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água e sal e sol. Mesmo que o esqueça, nunca poderá perder tudo isso. De algum modo obscuro seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.”
Esse foi O banho de mar e o meu melhor réveillon!!! Engraçado que sempre senti no meu Big um cheiro de maresia… tão sadio, tão atraente quanto o mar.
Bem, queridos, está sendo assim a minha vida, boa pra caramba! Sinto que se eu não me lançar, não me arriscar todo dia, vou perder a melhor parte – a cereja do bolo!!!
E você aí? Ainda não se habituou a viver?
O por do sol é quem vê! (Millôr)
VIVAMOS 2010 INTENSAMENTE
Queridíssimos,
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar on 23 de dezembro de 2009
Já disse aqui que adoro essa época? Se não, lá vai: Adoro final de ano!!! Principalmente desse que começou tão sem graça e agora vai-se embora em alto estilo.
Balanço final positivo, grandes expectativas, espírito diariamente renovado… Não que tudo tenha sido perfeito, o motivo da alegria não é esse. Mas foi quase. Quase! E cada vez estou mais perto do estado que sequer sei definir. Talvez esteja no começo de um estado de graça, exatamente como aquele que a Clarice descreveu em O livro dos prazeres – o estado de graça de uma pessoa comum que de súbito se torna real, porque é comum e humana e reconhecível e tem olhos e ouvidos para ver e ouvir as descobertas indizíveis e incomunicáveis:
Uma dica para amar VI – Estado de graça
“… Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça.
Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte.
O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. Nesse estado, além de tranquila felicidade que se irradiava de pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.”
Que 2010 supere nossas expectativas! Que todos nós sejamos mais otimistas, conscientes e humanos! Afinal, a vida não é de se brincar, em pleno dia se morre.
Não sei quando escreverei neste blog novamente. Quero aproveitar a folga no trabalho curtindo cada segundo offline LÁ FORA, sentindo tudo que tenho direito.
E muito obrigada por todos os emails desejando feliz natal, boas festas, boas entradas… Obrigada por todas as demonstrações de carinho. Vocês são demais!!!
Saúde, paz e amor!
É o que desejo
superlativamente,
hoje e sempre,
Renata
PROMETÊNIX
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para ler e viajar on 1 de dezembro de 2009
Em ritmo de Patrícia Evans, lá vai outra poesia com a qual me identifiquei muuuuito! Esse lance de Reinventar-se é a melhor filosofia de vida que conheço. As mudanças são sempre pra melhor, definitivamente. A apatia não combina comigo, com nenhum ser. Choro, me morro, mas me Rê-integro com força total! Que assim seja com todo mundo! Porque a vida, digna de esperança, é pra ser vivida até o último sopro.
PROMETÊNIX
(© Patrícia Evans)
Eu me renovo a cada dia,
em cada unha,
em cada cílio ou cabelo,
em cada sonho pueril, que eu supunha
e era mero pesadelo.
Eu me transformo a cada dor,
a cada punhalada do destino,
a cada horror
em constatar não ter vivido,
mesmo que por breve instante,
alguma chama flamejante,
que fizesse despertar a libido.
Eu me morro a cada perda
e me converto na eucaristia,
para que Deus me conceda
ressurreição ao terceiro dia.
E mesmo que sangre um pouco
e que haja choro em cada meu velório,
não há de haver outro morto,
e eis que esse é meu espólio,
que tenha vivido tão ardentemente!
CREDO EM CRUZ
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para ler e viajar on 1 de dezembro de 2009
Estou louca pra ver todas as minhas amigas bem casadas (falando como quem já fosse, repararam? Hahah…) principalmente aquelas que resistem a um compromisso mais sério, por uma simples razão: todo ser humano precisa de um par.
Sei que é difícil, que não depende só de uma simples vontade, mas pensando melhor, depende sim. Depende de um querer sem ranço de outro amor. Depende de coragem, de fé no amor. De um apelo sobrenatural pra seja lá qual for a divindade.
Porque nessas horas, meu camará, todo mundo sabe que o santo é o que menos importa e sim o milagre, o amor, que mais parece uma sangria desatada até se firmar ou morrer de vez, sempre com a possibilidade de renascer das cinzas.
Aos amantes desesperados, lá vai uma reza forte, que só a genialidade da Patrícia poderia inventar:
CREDO EM CRUZ
(© Patrícia Evans)
Credo em cruz, Ave! Maria.
Pé de pato mangalô treis veiz:
sai de mim a falta que você me faz.
Salve, Rainha, me dá sua paz!
Subo escada da Penha de joelhos.
Sangue da chaga, escorra.
Monta logo este cavalo branco,
vem e me salva, porra!
Longe de mim esta insanidade,
me abençoe, ó Santíssima Trindade…
Se não por meu amor,
que seja pelo amor de Deus,
mas não me negue um segundo mais
seu corpo exorcismando o meu.
Parabéns, Maria da poesia!
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar, R & R on 20 de novembro de 2009
Hoje é um dia especial, é o aniversário da Maria da poesia! Que merece sim mais uma singela homenagem neste blog por sua sensibilidade e benditas palavras! Não há uma pessoa pra quem eu mostre uma de suas poesias que não fique de certa forma tocada.
E como o meu final de semana promete ser muuuito romântico, apesar de, lá vai mais uma obra-prima:
NO ESCURO DOS OLHOS FECHADOS ME EQUILIBRAR NO DESEJO
a cama fluida como mar
o peito macio de ar e de risos
susurros suspiros sumiços no espaço
Detestos seus banhos em outras banheiras
e as músicas lindas que tinha por lá
tudo teu bonito eu quero
o de agora e o de depois
o de antes – o de antes
Quero o que dói e o que grita
teu suor, teus sonhos ruins
quero ser cura e veneno
quero o prazer mais pequeno que você puder sentir
Quando o planeta rugir
e o infinito for possível em todas as direções
quero ser eu nos teus dentes
teu nome em mim feito um filho
feito gente
feito carne de pegar
Feliz aniversário, Gullar!
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Gul(l)ar, Para ler e viajar on 10 de setembro de 2009
Ao maior poeta vivo, uma singela homenagem com sua poesia que é nossa também! 79 anos! Que vida!!! Parabéns!
Poema obsceno
Façam a festa
______cantem e dancem
que eu faço o poema duro
__________________o poema-murro
__________________sujo
__________________como a miséria brasileira
____Não se detenham:
____façam a festa
_______________Bethânia Martinho
_______________Clementina
____Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
____gente de Vila Isabel e Madureira
______________________________todos
______________________________façam
______________a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
__________________este surdo
_____________________poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
__________Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
__________o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
___________- e espreitam.
*O pontilhado é pra manter o ritmo original da leitura, a espacialidade do poema.
Coincidência
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar, R & R on 19 de agosto de 2009
MUITO MAIS QUE UM POEMA
alguma coisa que arde
e ao mesmo tempo serena
alguma planta que morde
e ao mesmo tempo semeia
metade monstro
metade sereia
cachorro de raça lambendo a minha mão
Muito mais que romance
muito mais que novela
você na minha vida é aquele que gera
o que espera
o que fica
o que vive as idades
você que sempre foi minha saudade
homem imenso que chegou sem avisar
Homem cubista
muitas partes
muitos todos
homem sonoro
voz que escorre pelo ouvido
homem de ver
homem de ter
homem de nunca mais largar
A Maria Rezende dedicou esse poema ao Rodrigo da vida dela. Que coincidência! Também tenho um Rodrigo que sempre foi minha saudade. Homem imenso que chegou sem avisar. Homem de ver, homem de ter, homem de nunca mais largar. A quem dedico esses versos, com amor! Love you, baby!
O amor é mudo
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para ler e viajar, R & R on 21 de julho de 2009
Ando meio tolhida para escrever aqui no meu blog. Como a intenção era sempre escrever sobre as minhas experiências, sensações e mudanças, agora que tudo está acontecendo, não posso. Não posso expor a minha atual experiência como gostaria.
Estou amando de verdade mas não convém escancarar os detalhes da minha relação, do meu amor, da nossa vida a vida. É tudo tão recente ainda e ao mesmo tempo tão antigo. Um mês e pouco só e tanta coisa já aconteceu, parece um ano, parece loucura sentir assim.
O nosso encontro foi como uma explosão, tudo de uma vez, sem nhe-nhe-nhem. E está sendo uma explosão em slow motion, porque estamos curtindo cada átimo de segundo e… chega! Não posso mais falar um A! Isso é estranho mas é uma forma de proteger o que tenho.
E falando sobre o que não pode ser dito, acabei de me lembrar de uma poesia do Gullar que inclusive já postei aqui. Simplesmente é genial. Há um trecho que neste momento me toca de forma muito peculiar:
“portanto
o meu assunto
é o não-dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)”
O amor é uma coisa que se sente, é mudo por natureza por ser inexplicável. Existe como um todo, mesmo que se queira negar, que não é o caso. Apenas dispensa comentários,
“porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo”
Como diz o poeta:
a fala, meu amor,
não fede nem cheira
História de amor? YES!
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar, R & R on 30 de junho de 2009
Eu que ria do twitter…
Ia contar aqui no meu blog a história de amor de um casal que se conheceu pela internet anos atrás e vivem juntos até hoje com direito a filha e uma vida totalmente em comum em Portugal, mas antes de contar essa história, que por sinal já é bastante conhecida, agora posso contar uma que acaba de começar, da qual inclusive SOU PROTAGONISTA!
Não precisei sair de casa à procura de um romance. Ele praticamente caiu do céu, de um céu moderno sobre um mar virtual e me serviu como uma luva, que me aqueceu o corpo e a alma.
Ele me trouxe uma possibilidade no dia em que estivemos juntos pela primeira vez, no dia em que ele também não cogitava nada além de uma simples apresentação à mesa de um delica.
A sua mão quente descobriu o gelo da minha e por instinto resolveu aquecê-la. A minha mão gelada gelou mais ainda pela audácia da proximidade, mas não deixou de segurar a dele também e entrelaçar os nossos dedos.
Foi um gesto tão natural que diante da menor necessidade de soltarmos as nossas mãos, percebi o quanto o movimento era abrupto. E, nesse exato momento, sem mais nem menos, o atrevido segurou o meu tornozelo com firmeza ainda que pulando muitas etapas para tal intimidade e me mostrou todo o cuidado que uma pessoa até então estranha não teria com o meu frio.
Foi A pegada fatal! Já podia ouvir um tum-tum-tum dentro do meu peito, que tentei abafar, juro. O nosso desenrolar estava sendo tão perfeito, que parecia mentira.
Mas a verdade é que dali em diante nada mais parecia estranho. Era loucura achar que haveria algo bom, como um amor daqueles de cinema, mas também era loucura duvidar do que as nossas mãos já tinham anunciado.
Todos os minutos seguintes foram serenos e doces. A novidade de nós dois parecia-nos tão velha conhecida, que naquela mesma noite ele quis me beijar e eu disse SIM, beijando-o!
De lambuja segue uma poesia da Maria Rezende que tem tudo a ver com a intensidade deste momento:
DIAS DE AFÃ E FRENESI
fudendo homens magros e a cabeça pelas noites
O amor apareceu e foi quase banal
foi como se fosse normal aquele olhar entre os passantes
como se houvesse ainda cavalo e, portanto, rédeas
quando na verdade era tudo já galope, disparada
Pode conter mais tremor o caseiro que o mundano?
pode o veneno habitar o lar?
cabem certezas na inquietude?
O amor é jangada de pedra,
ilha desconhecida
barco sempre à deriva
Se pode gritar “terra à vista!”
mas não pisar lá – terra firme
o amor é navegar
Ele é R como eu, botafogo, mangueirense, é o Big em quem pretendo me derr-amar…
Uma dica para amar VI – A truculência humana
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar on 21 de junho de 2009
Ontem curti uma festa junina daquelas bem típicas. A turma caprichou na indumentária, deu gosto de ver. Principalmente um casal que… Não adianta, estava tentando evitar, mas é mais forte do que eu esta vontade de destilar um pouco do meu veneno, lá vai:
Ele que embora estivesse com roupa comum, sequer desconfiou o quão caipira é sem fazer o menor esforço. Ela que, apesar de ter feito do próprio nome uma grife, lá estava totalmente jeca, mais parecendo uma jamanta atropelada de frente por um caminhão – descrição maldosa do meu amigo italiano que, por sua vez, destoava da temática justamente por ser italiano. Altivo, sedutor… capicce?
Fofoquinhas à parte, estava mesmo de olho na maçã do amor e foi quase morte ter apenas que me contentar com algumas lambidas gulosas e demoradas. O meu aparelho não me permitiu saciar a vontade daquela delícia. Assim como foi quase morte ter o meu irmão como gavião na hora da dança. Queria que o meu gavião estivesse ali comigo, me agarrando de verdade.
De repente, um cheiro de churrasco tomou conta da festa e lá estava o pobre do leitão no rolete, assando desde cedo. Foi uma cena dantesca! Não entendo como alguém pode olhar para aquilo e ficar com água na boca. Uma pena absoluta tomou conta do meu ser e olha que não sou vegetariana! Até gostaria, mas ainda não consegui. E olhando para aquele cadáver imenso girando, 85 quilos de carne, algumas pessoas em volta babando, imaginei a morte daquele animal. A insensibilidade do churrasqueiro era de assustar e o cheiro do leitão assando fazia repetir na minha mente apenas uma palavra – truculência.



Não comi o leitão. Aliás, a maioria ali não comeu. Mas o salsichão foi um sucesso. Até eu, que tenho nojo de salsicha, comi. A falta de escrúpulos imperou. Ninguém lembrou da morte ao comer o salsichão ou o churrasquinho no espeto. A truculência justificou o fato de a vida se alimentar de morte.
No livo Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, que não canso de indicar aqui, tem um diálogo entre Ulisse e Lóri interessantíssimo, vale a pena refletir sobre o tema:
_Não sei mais se no restaurante da Floresta da Tijuca tem galinha ao molho pardo, bem pardo por causa do sangue espesso que eles lá sabem preparar. Quando penso no gosto voraz com que comemos o sangue alheio, dou-me conta de nossa truculência, disse Ulisses.
_Eu também gosto disse Lóri a meia voz. Logo eu que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas, mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Não era melhor, quando formos lá, comer outra coisa? Perguntou meio a medo.
_Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.
Falando em morte…
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para amar, Para ler e viajar on 2 de junho de 2009
Uma dica para amar V – Antes de morrer
As mortes são tantas hoje em dia, que me parecem ser mais comum do que a própria vida. São mortes criminosas, acidentais, consequentes, naturais, fatos tão corriqueiros que o abalo emocional só acontece quando a morte envolve uma pessoa próxima ou quando foge da normalidade que se espera individualmente.
No entanto, todas as formas em que a morte se apresenta são apenas morte para quem morre e inconformismo diante da perda do ente querido insubstituível ou da iminência certa e inevitável para quem ainda vive. Em ambos os casos, uma grande injustiça.
Presumo que a constatação na hora H seja unânime: uma vida, a vida que conhecemos, nunca é o suficiente. Quando a vida é digna de esperança, todo mundo quer viver mais e mais, cada vez mais. Quem nasce quer viver e não morrer, apesar da morte ser o único fim previsto a todos. Dificilmente aceita-se a morte.
Não tenho medo de morrer. Se eu morrer, morri, acabou. A questão é que ANTES de morrer, como um ser humano qualquer, QUERO VIVER MAIS! E não quero viver sofrendo, sentindo dor. Se isso acontecer que a morte seja breve, o meu alívio necessário.
No livro, A Aprendizagem, que não canso de citar aqui neste blog, mostra o tempo todo esse confronto entre a vida e a morte. Em certo momento, Ulisses diz assim:
“Antes de morrer se vive, Lóri. É uma naturalidade morrer, transformar-se, transmutar-se. Nunca se inventou nada além de morrer. Como nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego e, no entanto, cada pessoa sem saber da outra, reinventa a cópia. Morrer deve ser um gozo natural. Depois de morrer não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso”.
Se eu morrer hoje, vou ser pega de surpresa tanto quanto você. Será uma morte estúpida, precoce, injusta, porque a vida que vivi até aqui ainda não me foi o suficiente. E não tenho nenhum remédio que amenize o inconformismo que restará aos que me amam e ainda viverão, além da lição de que se deve VIVER APESAR DE. Só sei que até lá, assim como Lóri, “não posso ter uma vida mesquinha porque ela não combinaria com o absoluto da morte”.
*Minha solidariedade às vítimas do Airbus da Air France, voo 447 (01/06/09) e às vítimas de mortes estúpidas e precoces.
MORRER PODIA SER SÓ UM POUQUINHO
podia ser um passeio
viagem pela noite que acabasse no café
Morrer como uma aventura
uma montanha
andar o deserto a pé depois voltar
Como dançar de olho fechado
se perder em outro corpo
como uísque bom, um sono inteiro
um prazer, um cheiro
Morrer podia até ser um castigo
porta fechada com prazo de fim
mas não esse buraco, esse abismo
seu riso sempre ausente
sua música soando em mim
Maria da Poesia
Uma visita inesperada
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar on 27 de maio de 2009
Já comentei neste blog que moro em um bairro onde existem muitos animais abandonados nas ruas. Os mais comuns são gatos, cachorros e, acreditem, cavalos! E como se não bastasse o fato de estarem abandonados, alguns imbecis fazem cada maldade com os inocentes que é uma coisa assim… inacreditável! Volta e meia fico sabendo de umas histórias horripilantes! Dá vontade de pegar todos os animais e levar para dentro de casa, cuidar e proteger. Tenho dó de bicho abandonado e judiado! De pessoas também, óbvio. Até hoje fico sem saber como agir quando passo por um mendigo ou um simples vira-lata largado nas ruas. É uma sensação de coração cortado!
Cavalo alugado não cansa
Aqui em Petrópolis existe aquele comércio provinciano de alugar por hora cavalos e charretes para o deleite dos turistas e veranistas. Não tem nada a ver com equitação – a arte de manter um cavalo entre você e a terra. Esquece isso! Presume-se que os donos do negócio gostam dos cavalos, mas não é verdade, não do jeito como imaginamos. Gostam de explorar os indefesos enquanto robustos e bonitos. Depois abandonam os infelizes, nem sei que fim levam exatamente. Pode ser que exista um “recanto” para cavalos velhos e/ou maltratados e eu não esteja sabendo. Só sei das chicotadas sem mais nem menos, que já cansei de presenciar, dadas pelos próprios donos e ‘cavaleiros’. Eles não têm noção de como domar um animal desse porte com respeito. Tanto, que se vê na pele do animal as marcas das chicotadas. E o olhar do cavalo? Não posso com aquele olhar! Dá pra ver naqueles olhos grandes a angustia e a tristeza por não serem livres. São escravos, é assim que os vejo.
Certa vez, até briguei com um cara na rua. O cavalo empacou, com certeza por exaustão, e o ignorante do ‘cavaleiro’ não perdoou, assisti a uma seqüência de chicotadas da forma mais estúpida possível. Lembro-me que havia uma ferida aberta na parte traseira do animal e era ali mesmo que o cretino sentava-lhe o chicote! O cavalo, coitado, acuado no canto da rua, provavelmente se perguntando que sina maldita era aquela?!
Mulher sardenta e cavalo passarinheiro, alerta companheiro
E aí, como vi e o meu coração sentiu, não teve jeito. Meu sangue ferveu, fui até o imbecil e perguntei:_ Vai bater até matar, seu filho da puta? Fiz um auê daqueles! Com direito a Polícia e o escambau! Tecnicamente não adiantou nada, só serviu mesmo pra assustar o covardão.
Visita inesperada
Agora há pouco ouvi um barulho diferente no portão da minha casa. Desci para ver o que era. E lá estava um dos animais mais bonitos desta natureza, ainda que maltratado – um cavalo branco.
Bem diferente do cavalo da Lóri.
Uma dica para amar IV
Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres
O cavalo da Lóri
Ulisses inventara um sistema para Lóri: Tudo que não soubesse ou não pudesse dizer, escrevia e lhe daria o papel mudamente. Prestes a se encontrar com Ulisses, não queria ir de mãos vazias. E assim como quem leva uma flor, ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer:
“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez”.
Ela sorriu: Ulisses ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era?
Nada de selas, rédeas, só a liberdade de ser
Por fim, não me perguntem qual é o sonho da minha vida porque a única resposta que poderia dar seria a seguinte pergunta: Qual deles? E um deles é ter um cavalo e um lugar imenso onde possa criá-lo Livre, simplesmente!
Talvez o meu coração seja esse lugar, uma cocheira de portas abertas. Só me falta mesmo O cavalo. Hahah…
Nota: Os dois primeiro subtítulos são provérbios gaúchos
Não posso dormir sem contar esta
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar on 26 de maio de 2009
Ontem à noite, de repente, o tempo fechou bem em cima da minha cabeça. A minha imaginação definitivamente não estava nos seus melhores dias. Fui dormir triste da vida, acordei macambúzia e sorumbática, conclusão: tive um dia difícil por causa de um motivo à toa, uma coisa boba mesmo que poderia ter passado despercebida.
Se estava certa ou não, pouco importa, exagerei e me deprimi. Isso que é realmente triste, apesar de engraçado! Agora só me resta rir de mim mesma: Rarará! Grande Renata!
Aproveitando que faltam duas horinhas para o dia de hoje acabar e o fato de estar me sentindo bem melhor, vou deixar aqui mais uma da Maria da Poesia que retrata muito bem o drama que vivi de ontem pra hoje e que me faz lembrar uma pessoa queridíssima que sempre que percebe em mim um certo mau humor, diz assim: não me faça malcriação!
TANTO ESFORÇO PRA SER BOA
Que acabei malcriada
Cada ‘não’ que escuto ou sinto
cada buraco na estrada
me atira de catapulta
num precipício de facas
E cada ‘não’ que não digo
Me afasta de um pulo e sempre
de ser a mulher que eu quero
e aniquila meu desejo
e confunde meu desejo
já não sei o que desejo
nem como é desejar
com toda a força aguda
que uma gente inteira tem
Meus dias são tropeçar
passos leves pelas casas
que é pra não incomodar
com o barulho da queda
E o som de todos os ‘nãos’
-os ouvidos e engolidos-
ressoa como granizo
no telhado de onde vivo
e não me deixa dormir
Ao meu parceiro
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar on 25 de maio de 2009
Parceiro, querido! Você não vai acreditar! Estava aqui agora arrumando umas coisas na minha mesa de trabalho, no meio daquela bagunça que não há arrumação que dê jeito, é teclado, é agenda, bloco de notas, caneta, hidratante para as mãos, celular, máquina digital, controle remoto, garrafa d’água, caneca, colírio, piranha, alicate, base incolor, vitamina C, alcachofra e uma pilha pequena dos livros que ainda não terminei de ler, onde por cima estava o Bendita Palavra. E não é que encontrei uma poesia falando sobre Parceria logo de cara?
Achei incrível ler a essência de todas aquelas minhas (nossas) reflexões sobre ter um comparte, um cúmplice, mais que um interesse comum, parte de si, uma relação além de qualquer vínculo contratual ou sanguíneo, e, inacreditavelmente, até do amor! Ei-la:
Parceria
É a coisa mais importante de todas as coisas
_aí incluídas
cama
café-da-manhã
amor
água quente
dinheiro
filhos
É a rede de proteção contra tudo que é ruim
Você tropeça, cai
mas não se espatifa o chão
É como rezar e ser atendido
É a temperatura certa
É o que te faz saber que tudo tu-tu-tu
que tudo nhem-nhem-nhem
e que mesmo quando tudo pá-rá-rá-tin-bum
você seguirá resistindo aos furações e às areias movediçãs
andando sobre as águas sem molhar as pernas
você existe
você é firme
você é
Eu sou
Essa Maria Rezende é mesmo um achado!
A você, Freitas, meu parceiro gorducho, queridíssimo e único! A quem não me canso de desejar sempre O melhor!
Beijos!
Agora vou contar outra coisa
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Maria da Poesia, Para ler e viajar on 19 de maio de 2009
Desculpem-me a falta de imaginação para títulos… Hahaha…
Bem (adoro essa palavra), há tempos estou louca para comentar alguma coisa sobre o livro Bendita Palavra, que recebi gentilmente da minha amiga (assim já a considero) Maria da Poesia. Ainda não li todas as poesias, mas posso garantir que o livro é uma delícia.
Inclusive, volta e meia ele é notícia. Domingo passado foi citado na coluna da Martha Medeiros e agora está à venda na Americanas.com. Ou seja, mais acessível do que isso, impossível!
Quem estiver atrás de uma poesia que provoca certas reflexões e foge literalmente do rame-rame que existe por aí, CONSUMAM MARIA DA POESIA!

Lógico que não terminaria este post sem deixar uma de suas poesias de lambuja:
AS COISAS BOAS SÃO PRISÕES SEM GRADES
pessoas boas são carcereiros sem chaves
o conforto é uma corrente que ata aos pés bolas imensas
felicidade é parede encobrindo o outro lado
Bons poemas são veneno: afastam palavras novas
caminhos cheios de setas não dão em praias desertas
o acerto de anteontem mata o risco dessa tarde
o sucesso é um uniforme que te obrigam a vestir
E o que é bom vira uma sina
mantém o mundo de cabeça pra cima
e você preso nesse lugar
**
Agora outra, lá vai:
BENDITA É A PALAVRA
que atravessa o meu deserto
e ultrapassa o meu silêncio
Bendita cada letra escrita
cada som soprado ou dito
-seja susurro, seja grito-
Bendito o fruto desse alfabeto
o eco que meus dedos trazem
espelho torto de me revelar
Eu velo é pela força dela
e são pra ela todas as minhas rezas
pro seu feitiço e pra sua ferida
Bendita também a palavra maldita
que bota fogo nesse apartamento
a portadora de toda agonia
Toda palavra carrega um incêndio
cada palavra tem no fundo um mar
bendita é a palavra que se deixa respirar
Uma dica para amar III – Quem é Ulisses?
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar on 15 de maio de 2009
Eu ia dizer que Lóri aprendera com Ulisses mas, na verdade, fui eu quem aprendeu com Ulisses. Aliás, aprender não é bem o termo adequado para o que quero expressar. Espraiou em mim um pouco mais da aprendizagem sobre Ser:
A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano
O livro (Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres) é assim, sutil e cheio de impacto. Tão facilmente como Lóri, chega-se à conclusão de que não existe dia-a-dia e sim vida-a-vida. Porque para ser alegre é preciso sofrer de um estreitamento no peito: a Vida. Escapar da ilusão da segurança na dor morna… Como disse antes não vou contar tudo, só quero destacar alguns trechos que me marcaram. Dentre eles, descobri um pouco de Ulisses em mim, embora substancialmente falte Ulisses em mim. Em certo momento ele disse:
_Quer saber como eu sou para me aceitar? (…) Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente, mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado?
Uma dica para amar II – Apesar de
Posted by Renata Fern in Bem à vontade, Para amar, Para ler e viajar on 12 de maio de 2009
Saudade
Já faz dias que li O livro – Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (clique aqui para comprar) - e o Ulisses não me sai da cabeça… Hahaha. Estou perdidamente apaixonada por esse personagem. Aliás, é comum isso acontecer quando leio um livro de que gosto muito, mergulho na história de tal forma que me envolvo com os personagens. Quando o desfecho se aproxima, começo a enrolar a leitura, relutante para que o fim demore o máximo. É como viajar e não querer voltar para casa.
Nesse romance, a Clarice foi tão genial, mais sacana que genial, eu diria, que a história começa com uma vírgula, ou seja, o que aconteceu antes não importa, pega-se o bonde andando literalmente. Mas é possível entrar logo no clima do livro, o fluxo do texto é ótimo! E ela ainda se superou no final – foi má! Terminou a narrativa com dois pontos e nós, pobres leitores, que nos conformemos! Ah! Não queria mesmo que o livro tivesse acabado ali, apesar de tudo que realmente importava na história já tivesse sido contado naquelas míseras 155 páginas, fiquei na vontade!
Título
Cada leitor decidirá se o livro foi Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Para mim, foi meio a meio. O livro todo foi um prazer, mas o meu aprendizado foi diferente do da Lóri.
Personagens
A Lóri era uma pessoa que vivia em negação, retraída, complexada, o que era inadmissível em uma mulher livre, independente, num mundo que só lhe oferecia possibilidades. Sem orientação emocional, aplicava muito mal o que sabia à sua vida. Até que surge o grande ser humano Ulisses e transforma, ou melhor, descobre o seu ser, o seu melhor ser.
O encontro dos dois poderia ter sido apenas mais um caso frívolo de sexo sem compromisso ou uma dessas mil relações superficiais que existem por aí, se não fosse a grandeza de Ulisses. Um homem incomum, culto, que em nome do verdadeiro prazer, valendo-se de todo seu conhecimento, deu a Lóri a chance de sentir o mesmo.
Não se sabe quando começou o amor, mas o respeito que Ulisses era capaz de sentir pela mulher, a Lóri, desenvolveu uma linda história de amor. Fico imaginando quantos corações ele deve ter partido até decidir ficar só com a Lóri… Hahah. A única mulher que também deu a ele a verdadeira possibilidade de derramar todo o amor que havia dentro de si. Juntos, os dois se tornaram melhores, invencíveis.
Um pouco da aprendizagem
Um dos ápices do aprendizado é quando a Lóri sente pela primeira vez calor humano. Ela não sabia lidar com aquilo e naturalmente se retraiu. Ligou para o Ulisses, tentando desmarcar o próximo encontro, e ele, do alto de sua magnanimidade, diz com um tom grave embora tranquilo:
Lóri, uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.
Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi.
E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero.
Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Não vou contar o que veio logo em seguida, mas passaram-se quase dois anos, se não me engano, até que a Lóri conseguisse expandir sua condição humana, não se resumir a um ínfimo corpo vazio e doloroso, que é menor que o pensamento. Afinal, aprendera com Ulisses a ter coragem de ter fé. Valia a pena aprender (sem medo) a amar e ser amada.
Lá vai mais uma frase bonita do livro:
“… a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”
Que falta me faz um Ulisses na minha vida!
Conhecer Ulisses me causou uma certa revolta. Onde hoje em dia se encontra um homem assim? Um ser humano assim? Dificilmente, algum relacionamento surge antes do sexo. As etapas são queimadas e o objetivo, o prazer, sequer é alcançado. Fiquei pensando nos meus antigos relacionamentos, se eu juntar todos os homens que tive, não dão o dedo mindinho do pé do Ulisses. Aliás, os meus relacionamentos foram piadas em comparação a esse que a Clarice narrou. Uma perda de tempo total, um engano à primeira vista, errei de pessoa todas as vezes em que me aventurei a ter uma relação, justamente porque não sabia controlar as minhas emoções, a vida, a coragem que existia em mim, eu não sabia SER EU, ou seja, também não fui lá grandes coisas! Por isso, nenhuma das minhas relações deixaram saudades. São fotos, muitas por sinal, pedaços de papel de momentos em que não me reconheço.






















Ping-Pong