Picardia

Prezado leitor,
Prepare-se para fazer um caminho sem volta no meu blog. Preste atenção como uma coisa leva a outra.

Não aguento quando me perguntam como tenho saco pra internet. Não é uma questão de ter ou não saco. Simplesmente trabalho online, é natural que eu usufrua a parte de entretenimento também. Entre um trabalhinho e outro, atualizo os tweets e falo com algumas pessoas pelo msn ou skype etc.
_ … atualiza o quê?
_ Tweets!
_ 0.O
_ Tweets, twitter.
_ Ahhhh…
Com essa deu pra sacar que a pessoa ouviu falar remotamente sobre twitter e não faz a menor ideia do que se trata efetivamente. O pior é que ainda insistiu em criticar minhas atividades online:
_Eu não tenho saco pra ficar nessa o dia inteiro. Pego logo e ligo!
Até aí morreu Neves. Não me disse nada. Mas tentando analisar calmamente, se a pessoa falou das redes pensando no internauta maníaco, realmente as redes absorvem muito e um contato mais direto, pessoal, é sempre melhor. Mas se a pessoa falou de um modo geral, deu pra perceber que ela não entende patavina de internet, muito menos do que as redes possibilitam, incluindo um contato mais direto!
Já com um quê de irritação, concluo que provavelmente essa pessoa paga a internet pra acessar… nem imagino o quê. Orkut, com certeza!
_Não, eu não tenho orkut. Aquilo lá me irrita.
Aí quem ficou com cara de tacho fui eu. No Brasil qualquer usuário reles tem orkut.
Dos dez mil degraus que a pessoa tinha descido no início da conversa, subiu três nesse momento.
_E por que o orkut te irrita?
_ Ah é muito ti-ti-ti, assuntos sem consistência nenhuma. Não preciso me expor na internet pra interagir com um amigo que seja, na frente de outros desconhecidos, só pra falar besteira.
_Que tipo de besteira?
_Bajulações, piadinhas inconvenientes, provocações, sexo…
Nesse momento, a pessoa subiu uns mil degraus no meu conceito. Comecei a me interessar pelo papo de verdade e entendi que de fato ninguém é obrigado a gostar de internet. Existem várias formas de comunicação, a internet é ainda apenas uma delas. Sei que isso soa estranho à beça, mas ainda é possível viver sem internet. Embora eu acredite que essa exclusão digital já tenha comprometido bastante o futuro dessa pessoa, sem que ela se dê conta do tamanho do prejuízo, enfim…
E eu que já estava taxando a pessoa de ignorante pra baixo no início da conversa, com aquele meu saquinho de filó básico, tive que dar a mão à palmatória sobre a percepção aparentemente vaga daquela pessoa. Uma coisa é certa, existem contatos e contatos, um é a sua resposta, o outro, pura provocação! E você acaba sendo diferente com cada um deles.
Cria-se facilmente um ambiente de picardia, principalmente com as pessoas mais próximas, parece incrível! Esnobação, exibicionismo, competição, alfinetadas, zombaria, nem sempre no clima do humor do dia, do grau de TPM.
E criticar a consistência de certos assuntos não sei até que ponto é relevante, afinal, muitos só querem bundear, extravasar sem compromisso filosófico ou intelectual. Não há pecado nisso. Cada um é que sabe de si.
Mas sobre sexo especialmente, assunto que rola em qualquer lugar e o tempo inteiro, considerando também o fato de que não há como não ter uma opinião sobre o tema, sou adepta daquele conceito de que quanto mais se fala (escreve), menos se faz, embora contraditoriamente seja necessário falar (escrever), no mínimo, a título de informação. Sexo sempre causará polêmica, curiosidade pela novidade que representa a cada experiência, mas divagações sobre ceninhas eróticas do jeito que leio excessivamente em vários blogs, tweets não me dizem absolutamente nada! Isso é papo de masturbador, de ranço de *história de fogo, histeria!!!
Não foi à toa que Francis disse ao Bial em 89: Pedro, o ser humano é de classe média!
Filosofando sério a la Freitas…
Ou seja, a genialidade dessa simples frase do Francis concluiu que no fim das contas todo mundo gosta das mesmas coisas. Exatamente o que Marx não previu. A história mostrou que não é a base material, é a superestrutura de valores que conta.
Marx pensava apenas no materialismo. Esqueceu que o homem se vende pelo prazer e nele se perde.
Prazer é libido. Porque prazer por bens materiais ou sociais já é abstração do prazer. Essa distinção que ninguém entende hoje em dia.
Mas como é difícil satisfazer a libido, talvez até impossível, é mais fácil apelar pra representação. Nesse ponto faltou ao Marx, uma pequena dose de Freud.
Marx esqueceu que a busca do materialismo já é uma busca por valores, já é uma representação. Pão e circo resolvem. A libido não satisfeita busca satisfação no materialismo. Não pra resolver questões essenciais e sim pelo “prazer simbólico”.
Agora, quando a libido é totalmente satisfeita… ama-se até numa casinha de sapê. E dinheiro pouco importa. O homem descobre que nasceu pra trepar!!!
O problema é que não podemos nos dedicar a essa libido compulsivamente. Se ficarmos só trepando, morremos.
Esse é o raciocínio do Herbert Marcuse. Ethos = pathos; Prazer = morte. Por isso, o homem é pluridimensional. Com dimensões de falso prazer, representações do prazer. Tipo: cinema – jantar – boite – hotel. O “trepar socializado”.
Marcuse é genial! Entretanto, quem está na moda é o Zizek, que pega Lacan em vez de Freud. Lacan fala de representações simbólicas “socializadas” do (falso) prazer. O (falso) prazer é necessário senão a sociedade acaba em Sodoma e Gomorra… Hahahah..
Concluindo: Marcuse escreveu sobre um homem multidimensional. Em oposição a um homem unidimensional. Ele fala em dimensões. Lacan fala de representações simbólicas, que Marcuse chamava de sublimação.
O ponto comum é que os dois veem nisso um aspecto repressivo do social. Marcuse chamava as tais representações de sublimação repressiva ou dessublimação. Semelhante a: perdi meu amor, vou virar freira. Ou vou sair dando por aí e que se foda.
Mas libido não é sexo. É sexo-amor. Com amor. Ou como realização do amor. Gozar por gozar é como punheta, comer por comer ou dar por dar é o mesmo que punheta. Não é libido. Não é prazer (ato + sentimento). É repressão. Zizek exemplifica com cinema, rock e, por isso, é badaladão!
Tem um texto dele sobre o filme do Mel Gibson: “A fé em tempos de café descafeinado“. Como está valorizado o fato de as coisas perderem sua essência: leite desnatado, café descafeinado, adoçante em vez de açúcar, doce dietético, tecido sintético por seda, realidade virtual, sexo no computador. O problema é pagar as contas, não ser feliz. Porque ser feliz é comprar coisas, mesmo que não precise delas. Total deturpação! Aquele papo de que a melhor terapia é gastar, fazer compras, é balela! Isso é coisa de homem de classe média.
Entenderam como uma coisa leva a outra? Aquela simples frase do Francis estava profundamente embasada. A classe E não tem plano de saúde mas tem TV a cabo. A classe E quer tênis da moda. A classe E não estuda, mas frequenta bares, boites, bailes funks e aí…vai ficando atoladinha, vai ficando atoladinha…
É a degradação humana. O homem se perde no pseudo prazer, que é a tal repressão.
Prazer é sorrir sem saber bem o porquê. Está relacionado com espontaneidade. Quando amamos, sorrimos sozinhos. Por nada. Isso é pura libido!!!
Contudo, ainda existem os espertos que acham que sexo não tem nada a ver com amor.
O sexo é a procura, é o meio de amar, de consumar apenas o amor. O resto é bronha!
Por isso também que ninguém é feliz sozinho, o amor é a dois.
Só mais uma coisinha: A tal frase do Francis explicou muito bem a derrubada do muro.
E também o porquê de quase ninguém abordar o assunto “sexo” com consistência. O ser humano é de classe média “e gosta mesmo é de cultura de mídia” – o final é meu.

Da Renata,
Que nem ri mais dos que vivem de picardia;
Que sobre sexo, não dá ibope pra tosqueiras;
Preocupa-se apenas com seu amor!

*OTTO

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Uma resposta a Picardia

  1. André Agra disse:

    Muito bom. Muito bom!!! A percepção do texto sobre a “superestrutura dos valores” é muito boa. Weber e a sua sociologia compreensiva fala de “constelações de valores” que permeiam a “ação humana”, ou seja, não há reducionismo, como no caso de Marx. Quanto à libido, o pensamento de Freud é genial, mas Jung, ao meu ver, vai um pouquinho além. Gostei também de sua relação inusitada: prazer e repressão. Também acho que sexo vai mais longe (ligado ao compartilhamento), por isso, gosto do conceito de eroticidade. Na realidade, tento desenvolver pesquisas sobre sexualidade feminina, religião e moral sexual, sob um enfoque de gênero, tentando identificar sinais de androcentrismo e patriarcalismo. Seu texto é bom também nesse contexto, pois quebra barreiras (impostas pela cultura machista) no discurso. Antes uma boa mulher não se expressava publicamente, não era de bom tom..(lembrei-me agora daquele programa “papo calcinha”, no multishow, que foi censurado, desde semana passada, porque as mulheres falavam abertamente sobre sexo). Não nos livramos nem de longe do machismo…

    Um beijão, sou seu fã…

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