Uma dica para amar VI – A truculência humana

Ontem curti uma festa junina daquelas bem típicas. A turma caprichou na indumentária, deu gosto de ver. Principalmente um casal que… Não adianta, estava tentando evitar, mas é mais forte do que eu esta vontade de destilar um pouco do meu veneno, lá vai:
Ele que embora estivesse com roupa comum, sequer desconfiou o quão caipira é sem fazer o menor esforço. Ela que, apesar de ter feito do próprio nome uma grife, lá estava totalmente jeca, mais parecendo uma jamanta atropelada de frente por um caminhão – descrição maldosa do meu amigo italiano que, por sua vez, destoava da temática justamente por ser italiano. Altivo, sedutor… capicce?
Fofoquinhas à parte, estava mesmo de olho na maçã do amor e foi quase morte ter apenas que me contentar com algumas lambidas gulosas e demoradas. O meu aparelho não me permitiu saciar a vontade daquela delícia. Assim como foi quase morte ter o meu irmão como gavião na hora da dança. Queria que o meu gavião estivesse ali comigo, me agarrando de verdade.
De repente, um cheiro de churrasco tomou conta da festa e lá estava o pobre do leitão no rolete, assando desde cedo. Foi uma cena dantesca! Não entendo como alguém pode olhar para aquilo e ficar com água na boca. Uma pena absoluta tomou conta do meu ser e olha que não sou vegetariana! Até gostaria, mas ainda não consegui. E olhando para aquele cadáver imenso girando, 85 quilos de carne, algumas pessoas em volta babando, imaginei a morte daquele animal. A insensibilidade do churrasqueiro era de assustar e o cheiro do leitão assando fazia repetir na minha mente apenas uma palavra – truculência.

O leitão - 1O leitão - 2O Leitão - 3
Não comi o leitão. Aliás, a maioria ali não comeu. Mas o salsichão foi um sucesso. Até eu, que tenho nojo de salsicha, comi. A falta de escrúpulos imperou. Ninguém lembrou da morte ao comer o salsichão ou o churrasquinho no espeto. A truculência justificou o fato de a vida se alimentar de morte.

No livo Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, que não canso de indicar aqui, tem um diálogo entre Ulisse e Lóri interessantíssimo, vale a pena refletir sobre o tema:

_Não sei mais se no restaurante da Floresta da Tijuca tem galinha ao molho pardo, bem pardo por causa do sangue espesso que eles lá sabem preparar. Quando penso no gosto voraz com que comemos o sangue alheio, dou-me conta de nossa truculência, disse Ulisses.
_Eu também gosto disse Lóri a meia voz. Logo eu que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas, mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Não era melhor, quando formos lá, comer outra coisa? Perguntou meio a medo.
_Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.

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10 respostas a Uma dica para amar VI – A truculência humana

  1. drika disse:

    eu tb ñ comeria esse ser. sou carnívora, mas em pensar nisso, assim, dessa forma inteira me dá vontade de deixar de sê-lo.

  2. Freitas disse:

    Ki leitãozinho apetitoso!

    [ ]s do Freitas
    Com paz e amor e um pouquinho de truculência, sempre que necessário

  3. Renata Fern disse:

    Pois é, Drika! Dá uma pena danada. Que amor é esse que sentimos pelos animais?

    Freitas, hahaha… sabia que vc ia dizer isso. Que gorducho guloso!

    Beijos.

  4. maria disse:

    Como você é má, my god!

    Eu nem fui olhar o leitão. Não comi a maçã, fui na uva e babei tudo. A Jeca, lamento por ela não ter chegado perto – ela ainda está atravessada. O Caipira, tadinho, eu gosto dele, vc é que é muito má. E o Italiano, bem, o Italiano, ahhhhhh, o Italiano! hahahaha

    Quanto à morte do leitão, ouvi dizer que é rápida. Até porque, se não for, o matador sofre mais do que o bicho.

  5. Renata Fern disse:

    Eu tb gosto do caipira, principalmente quando ele não palita os dentes, não cospe no chão, não enfia o dedo no nariz e não me canta.. hehehe… Só quis zoar o fato de que eles se acham os modistas, mas a educação passa longe ali muitas vezes. Só o sobrenome que é famosinho (agora despejei todo o veneno! Hahaha…)

    Tb fui na uva, mas só consegui me lambuzar.

    Bj.

  6. Iri disse:

    Mulheres!
    Rê, vc fez um terrorismo agora chamando o apetitoso leitão de cadáver, nada a ver.
    Lá no Cervantes vc não fica com pena do leitão não, né cara-de-pau!

    Beijo do Iri,
    Que não quer nem saber, joga na cara mesmo.

  7. Tiago Medina disse:

    Não conseguiria comer esse porco também.
    Até gosto de porco, mas sou simpático a eles, por isso evito comê-los… hehe
    Mas, até eu que sou gaúcho, não gostei muito da imagem.
    No mais, festas juninas são sempre um tanto quanto esquisitas pra mim…

    beijo, Rê

  8. Renata Fern disse:

    Iri… que mala você é, hein?! Mas faz tempo que não vou ao cervantes, tá?!

    Tiago, como vc mesmo disse, se vc é gaúcho e ficou meio chocado, imagine euzinha aqui.

    Beijos

  9. Renata disse:

    Eu comeria, sorry rs.

  10. Renata Fern disse:

    Hahahah…. Sabia! Gulosa!!!

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